—-Tanto mais quanto era inexplicável. Tu amavas a Clotilde, não? Ela, coitadita! parecia louca por ti, e os pais estavam radiantes de alegria. De repente, súbita transformação. Tu desapareces, a família fecha os salões como se estivesse de luto pesado. Clotilde chora... Evidentemente havia um mistério, uma dessas coisas capazes de fazer os espíritos imaginosos arquitetarem dramas horrendos. Por felicidade, o juízo geral é contra o teu procedimento.
— Contra mim?
Podia ser contra a pureza da Clotilde. Graças aos deuses, porém, é contra ti. Eu mesmo concordaria com o Prates que te chama velhaco, se não viesse encontrar o nosso Rodolfo, agora, onze da noite, por tamanha intempérie metido num trem de subúrbio, com o ar desvairado...
— Eu tenho o ar desvairado?
— Absolutamente desvairado.
— Vê-se?
— É claro. Pobre amigo! Então, sofreste muito? Conta lá. Estás pálido, suando apesar da temperatura fria, e com um olhar tão estranho, tão esquisito. Parece que bebeste e que choraste. Conta lá. Nunca pensei encontrar o Rodolfo Queiroz, o mais elegante artista desta terra, nem trem de subúrbio, às onze de uma noite de temporal. É curioso. Ocultas os pesares nas matas suburbanas? Estás a fazer passeios de vício perigoso?
O trem rasgara a treva num silvo alanhante, e de novo cavalava sobre os trilhos. Um sino enorme ia com ele badalando, e pelas portinholas do vagão viam-se, a marginar a estrada, as luzes das casas ainda abertas, os silvedos empapados d’água e a chuva lastimável a tecer o seu infindável véu de lágrimas. Percebi então que o sujeito gordo da banqueta próxima — o que falava mais — dizia para o
outro:
— Mas como tremes, criatura de Deus! Estás doente?
O outro sorriu desanimado.
— Não; estou nervoso, estou com a maldita crise. E como o gordo esperasse:
— Oh! meu caro, o Prates tem razão! E teve razão a família de Clotilde e tens razão tu cujo olhar é de assustada piedade. Sou um miserável desvairado, sou um infame desgraçado.
— Mas que é isto, Rodolfo?
— Que é isto! E’ o fim, meu bom amigo, é o meu fim. Não há quem não tenha o seu vício, a sua tara, a sua brecha. Eu tenho um vício que é positivamente a loucura. Luto, resisto, grito, debato-me, não quero, não quero, mas o vício vem vindo a rir, toma-me a mão, faz-me inconsciente, apodera-se de mim. Estou com a crise. Lembras-te da Jeanne Dambreuil quando se picava com morfina? Lembras-te do João Guedes quando nos convidava para as fumeries de ópio? Sabiam ambos que acabavam a vida e não podiam resistir. Eu quero resistir e não posso. Estás a conversar com um homem que se sente doido.
— Tomas morfina, agora? Foi o desgosto decerto...
O rapaz que tinha o olhar desvairado perscrutou o vagão. Não havia ninguém mais — a não ser eu, e eu dormia profundamente... Ele então aproximou-se do sujeito gordo, numa ânsia de explicações.
— Foi de repente, Justino. Nunca pensei! Eu era um homem regular, de bons instintos, com uma família honesta. Ia casar com a Clotilde, ser de bondade a quem amava perdidamente. E uma noite estávamos no baile das Praxedes, quando a Clotilde apareceu decotada, com os braços nus. Que braços! Eram delicadíssimos, de uma beleza ingênua e comovedora, meio infantil, meio mulher — a beleza dos braços das Oréadas pintadas por Botticeli, misto de castidade mística e de alegria pagã. Tive um estremecimento. Ciúmes? Não. Era um estado que nunca se apossara de mim: a vontade de tê-los só para os meus olhos, de beijá-los, de acariciá-los, mas principalmente de fazê-los sofrer. Fui ao encontro da pobre rapariga fazendo um enorme esforço, porque o meu desejo era agarrar-lhe os braços, sacudi-los, apertá-los com toda a força, fazer-lhes manchas negras, bem negras, feri-los... Por quê? Não sei, nem eu mesmo sei — uma nevrose! Essa noite passei-a numa agitação incrível. Mas contive-me. Contive-me dias, meses, um longo tempo, com pavor do que poderia acontecer. O desejo, porém ficou, cresceu, brotou, arraigou-se na minha pobre alma. No primeiro instante, a minha vontade era bater-lhe com pesos, brutalmente. Agora a grande vontade era de espetá-los, de enterrar-lhes longos alfinetes, de cozê-los devagarinho, a picadas. E junto de Clotilde, por mais compridas que trouxesse as mangas, eu via esses braços nus como na primeira noite, via a sua forma grácil e suave, sentia a finura da pele e imaginava o súbito estremeção quando pudesse enterrar o primeiro alfinete, escolhia posições, compunha o prazer diante daquele susto de carne que havia de sentir.
— Que horror!!!
— Afinal, uma outra vez, encontrei-a na sauterie da viscondessa de Lages, com um vestido em que as mangas eram de gaze. Os seus braços — oh! que braços, Justino, que braços ! — estavam quase nus. Quando Clotilde erguia-os, parecia uma ninfa que fosse se metamorfoseando em anjo. No canto da varanda, entre as roseiras, ela disse-me — “Rodolfo, que olhar o seu. Está zangado?" Não foi possível reter o desejo que me punha a tremer, rangendo os dentes. — “ Oh! não!" fiz. "Estou apenas com vontade de espetar este alfinete no seu braço". Sabes como é pura a Clotilde. A pobrezita olhou-me assustada, pensou, sorriu com tristeza: —“Se não quer que eu mostre os braços, por que não me disse há mais tempo, Rodolfo? Diga, é isso que o faz zangado? “ — “ É , é isso, Clotilde". E rindo — como esse riso devia parecer idiota! — continuei “É preciso pagar ao meu ciúme a sua dívida de sangue. Deixe espetar o alfinete. “ - Está louco, Rodolfo? “ — “ Que tem? “ — “ Vai fazer-me doer". — “Não dói. “ — “ E o sangue? ” —“Beberei essa gota de sangue como a ambrosia do esquecimento". E dei por mim, quase de joelhos, implorando, suplicando, inventando frases, com um gosto de sangue na boca e as frontes a bater, a bater... Clotilde por fim estava atordoada, vencida, não compreendendo bem se devia ou não resistir. Ah! meu caro, as mulheres! Que estranho fundo de bondade, de submissão, de desejo, de dedicação inconsciente tem uma pobre menina! Ao cabo de um certo tempo, ela curvou a cabeça, murmurou num suspiro “Bem, Rodolfo, faça... mas devagar, Rodolfo! Há de doer tanto!" E os seus dois braços tremiam. Tirei da botoeira da casaca um alfinete, e nervoso, nervoso como se fosse amar pela primeira vez, escolhi o lugar, passei a mão, senti a pele macia e enterrei-o. Foi como se fisgasse uma pétala de camélia, mas deu-me um gozo complexo de que participavam todos os meus sentidos. Ela teve um ah! de dor, levou o lenço ao sítio picado, e disse, magoadamente — “ Mau!”
Ah! Justino, não dormi. Deitado, a delícia daquela carne que sofrera por meu desejo, a sensação do aço afundando devagar no braço da minha noiva, dava-me espasmos de horror! Que prazer tremendo!
E apertando os varões da cama, mordendo o travesseiro, eu tinha a certeza de que dentro de mim rebentara a moléstia incurável. Ao mesmo tempo que forçava o pensamento a dizer: "Nunca mais farei essa infâmia!", todos os meus nervos latejavam: "Voltas amanhã; tens que gozar de novo o supremo prazer!" Era o delírio, era a moléstia, era o meu horror...
Houve um silêncio. O trem corria em plena treva, acordando os campos com o desesperado badalar da máquina. O sujeito gordo tirou a carteira e acendeu uma cigarreta.
— Caso muito interessante, Rodolfo. Não há dúvida que é uma degeneração sexual, mas o altruísmo de S. Francisco de Assis também é degeneração e o amor de Santa Teresa não foi outra coisa. Sabes que Rousseau tinha pouco mais ou menos esse mal? És mais um tipo a enriquecer a série enorme dos discípulos do marques de Sade. Um homem de espírito já definiu o sadismo: a depravação intelectual
do assassinato. És um Jack-the-ripper civilizado , contentas-te com enterrar alfinetes nos braços. Não te assustes.
O outro resfolegava, com a cabeça entre as mãos.
— Não rias, Justino. Estás a tecer paradoxos diante de uma criatura já do outro lado da vida normal. É lúgubre.
— Então continuaste?
— Sim, continuei, voltei, imediatamente. No dia seguinte, à noitinha, estava em casa de Clotilde, e com um desejo louco, desvairado. Nós conversávamos na sala de visitas. Os velhos ficavam por ali a montar guarda. Eu e a Clotilde íamos para o fundo, para o sofá. Logo ao entrar tive o instinto de que podia praticar a minha infâmia na penumbra da sala, enquanto o pai conversasse. Estava tão agitado que o velho exclamou: — “ Parece, Rodolfo, que vieste a correr para não perder a festa.”
Eu estava louco, apenas. Não poderás nunca imaginar o caos da minha alma naqueles momentos em que estive a seu lado no sofá, o maelstrom de angústias, de esforços, de desejos, a luta da razão e do mal, o mal que eu senti saltar-me a garganta, tomar-me a mão, ir agir, ir agir... Quando ao cabo de alguns minutos acariciei-lhe na sombra o braço, por cima da manga, numa carícia lenta que subia das
mãos para os ombros, entre os dedos senti que já tinha o alfinete, o alfinete pavoroso. Então fechei os
olhos, encolhi-me, encolhi-me, e finquei.
Ela estremeceu, suspirou. Eu tive logo um relaxamento de nervos, uma doce acalmia. Passara a crise com a satisfação, mas sobre os meus olhos os olhos de Clotilde se fixaram enormes e eu vi que ela compreendia vagamente tudo, que ela descobria o seu infortúnio e a minha infâmia. Como era nobre, porém! Não disse uma palavra. Era a desgraça. Que se havia de fazer?...Então depois, Justino, sabes? foi todo o dia. Não lhe via a carne mas sentia-a marcada, ferida. Cosi-lhe os braços! Por último perguntava: — “Fez sangue, ontem?” E ela pálida e triste, num suspiro de rola: “Fez...” Pobre Clotilde! A que ponto eu chegara, na necessidade de saber se doera bem, se ferira bem, se estragara bem! E no quarto, à noite, vinham-me grandes pavores súbitos ao pensar no casamento porque sabia que se a tivesse toda havia de picar-lhe a carne virginal nos braços, no dorso, nos seios...Justino, que tristeza !...
De novo a voz calou-se. O trem continuava aos solavancos na tempestade, e pareceu-me ouvir o rapaz soluçar. O outro porém estava interessado, e indagou:
— Mas então como te saíste?
— Em um mês ela emagreceu, perdeu as cores. Os seus dois olhos negros ardiam aumentados pelas olheiras roxas. Já não tinha risos. Quando eu chegava, fechava-se no quarto, no desejo de espaçar a hora do tormento. Era a mãe que a ia buscar. “Minha filha, o Rodolfo chegou. Avia-te. “ E lá de dentro: "Já vou, mãe". Que dor eu tinha quando a via aparecer sem uma palavra ! Sentava-se à janela, consertava as flores da jarra, hesitava, até que sem forças vinha tombar a meu lado, no sofá, como esses pobres pássaros que as serpentes fascinam. Afinal, há dois meses, uma criada viu-lhe os braços, deu o alarme. Clotilde foi interrogada, confessou tudo numa onda de soluços. Nessa mesma tarde recebi uma carta seca do velho pai desfazendo o compromisso e falando em crimes que estão com penas no código.
— E fugiste?
— Não fugi; rolei, perdi-me. Nada mais resta do antigo Rodolfo. Sou outro homem, tenho outra alma, outra voz, outras ideias. Assisto-me endoidecer. Perder a Clotilde foi para mim o soçobramento total. Para esquecê-la percorri os lugares de má fama, aluguei por muito dinheiro a dor das mulheres infames, frequentei alcouces. Até aí o meu perfil foi dentro em pouco o terror. As mulheres apontavam-me a sorrir, mas um sorriso de medo, de horror.
A pedir, a rogar um instante de calma eu corria às vezes ruas inteiras da Suburra, numa enxurrada de apodos. Esses entes querem apanhar do amante, sofrem lanhos na fúria do amor, mas tremem de nojo assustado diante do ser que pausadamente e sem cólera lhes enterra alfinetes. Eu era ridículo e pavoroso. Dei então para agir livremente, ao acaso, sem dar satisfações, nas desconhecidas. Gozo agora nos tramways , nos music-halls, nos comboios dos caminhos de ferro, nas ruas. É muito mais simples. Aproximo-me, tomo posição, enterro sem dó o alfinete. Elas gritam, às vezes. Eu peço desculpa.
Uma já me esbofeteou. Mas ninguém descobre se foi proposital. Gosto mais das magras, as que parecem doentes.
A voz do desvairado tornara-se metálica, outra vez. De novo porém a envolveu um tremor assustado.
— Quando te encontrei, Justino, vinha a acompanhar uma rapariga magrinha. Estou com a crise, estou... O teu pobre amigo está perdido, o teu pobre amigo vai ficar louco...
De repente, num entrechocar de todos os vagões, o comboio parou. Estávamos numa estação suja, iluminada vagamente. Dois ou três empregados apareceram com lanternas rubras e verdes. Apitos trilaram. Nesse momento, uma menina loura com um guarda-chuva a pingar, apareceu, espiou o vagão, caminhou para outro, entrou. O rapaz pôs-se de pé logo.
— Adeus.
— Saltas aqui?
— Salto.
— Mas que vais fazer?
— Não posso, deixa-me! Adeus!
Saiu, hesitou um instante. De novo os apitos trilaram. O trem teve um arranco. O rapaz apertou a cabeça com as duas mãos como se quisesse reter um irresistível impulso. Houve um silvo. A enorme massa resfolegando rangeu por sobre os trilhos. O rapaz olhou para os lados, consultou a botoeira, correu para o vagão onde desaparecera a menina loura. Logo o comboio partiu. O homem gordo recolheu a sua curiosidade, mais pálido, fazendo subir a vidraça da janela. Depois estendeu-se na banqueta. Eu estava incapaz de erguer-me, imaginando ouvir a cada instante um grito doloroso no outro vagão, em que estava a menina loura. Mas o comboio rasgara a treva com outro silvo, cavalgando os trilhos vertiginosamente. Através das vidraças molhadas viam-se numa correria fantástica as luzes das casas ainda abertas, as sebes empapadas d’água sob a chuva torrencial. E à frente, no alto da locomotiva, como o rebate do desespero, o enorme sino reboava, acordando a noite, enchendo a treva de um clamor de desgraça e de delírio.
Variados são os motivos que levam uma pessoa a morar sozinha: escolha própria para encarar os desafios; mudança de cidade para um curso em uma faculdade ou um novo emprego; uma separação ou, na pior situação, a morte dos pais. Independente do motivo que faz com que uma pessoa escolha morar sozinho, o primeiro e mais importante passo para se estabelecer é se adequar às condições financeiras e, com o tempo, definir metas a serem alcançadas. Ou seja, é preciso amadurecer ou amadurecer para a vida real.
Há dez anos fiz a escolha de alugar um cômodo próximo ao local onde trabalhava e, com isso, economizar o dinheiro da passagem para adquirir móveis, roupas de cama, mesa e banho, utensílios domésticos básicos e outros itens essenciais. Apelidei o cômodo, que tinha um banheiro interno, de “caverna”, com todo respeito à proprietária do imóvel. Mas foi ali que tive minha primeira experiência com o isolamento e a responsabilidade, características que permeiam a pessoa que adota essa opção de vida. Hoje, um pouco mais confortável, relembro de todo esse caminho percorrido e rio sozinho no meio da rua. Alguns olham e acham que sou louco.
Às vezes, alguns alunos me procuram e dizem que desejam morar sozinhos. Prontamente eu respondo: “Prudência! Avalie todas as possibilidades antes de se aventurar por esse caminho”. Muitos desistem, é óbvio. Outros, no entanto, desafiam o perigo e colhem bons frutos dessa experiência. Semanas atrás li um post de um ex-aluno relatando a saga, com o qual dialogo em minha breve crônica.
“Você varre a casa num dia e no outro parece que 20 pessoas chegadas do deserto ficaram rolando no chão durante três horas...porque não há outra explicação pro aparecimento dessa quantidade de poeira”. Não mesmo. Mesmo ao mantermos as janelas fechadas, colocarmos um capacho na porta de entrada, passarmos pano todo final de semana, a poeira surge do nada. Fazer vista grossa é pior: na próxima consulta com seu médico, ele certamente irá alertá-lo de que sua rinite é oriunda do acúmulo de poeira, fungos e ácaros em móveis, no tapete, no lençol de cama.
“Você acaba de lavar a louça, toma uma aguinha e, do nada, Tchantchantantan...aparecem 30 copos, 27 pratos e 17 tupperware sujos na pia”. É batata. Por mais disciplinada que a pessoa seja, é inevitável o acúmulo de louça na pia. Se essa pessoa gosta de frituras, aí a coisa complica. Lavar e arear a panela, limpar o fogão e guardar toda a louça demandará um tempo generoso para os procrastinadores. Não vou nem mencionar quando isso ocorre na época do inverno.
“Você segue as receitas da internet pra fazer aquele pavê lindo do tutorial. Quando pronto, fica parecendo um bando de meia suja”. Não me arrisco. Prefiro ficar no básico pra não sofrer com os resultados. Às vezes me arrependo, pois “errando é que se aprende”, nos ensina o velho chavão. Mas a fadiga de comer um mesmo prato por três, quatro dias seguidos, me desencoraja a sonhar um dia em me candidatar ao Masterchef. Mas garanto: o feijão suculento, o arroz bem solto e as saladas que invento, divinas, garantem uma refeição leve e agradável de ser digerida.
“A comida ruim que você faz: ou você come ou morre”. Confesso que nos primeiros dias, a experiência com a cozinha não foi das melhores. O arroz “católico” grudava no fundo, o feijão ou ficava duro ou passava do ponto. Mistura? Ovo. Sem tempo para cozinhar, comi tanto ovo que, segundo as teorias científicas de algumas pessoas, deveria estar com o colesterol bem elevado. Não morri e não tive colesterol. Mas aprendi a preparar alguns cozidos que me salvaram da mesmice.
“Você descobre que os produtos de limpeza custam mais que um coração no mercado negro (R$ 30,00 UM POTINHO DE VANISH, ISSO NÃO EXISTE”. É tudo muito caro. De acordo com o Dieese, o preço médio da cesta básica em abril de 2017 no estado de São Paulo foi de R$ 446,00, sem o Vanish, é claro. Para se ter uma ideia, segundo o mesmo órgão, “em abril de 2017, o salário mínimo necessário para a manutenção de uma família de quatro pessoas deveria equivaler a R$ 3.899,66”. O gasto com a cesta básica equivale a 53% do orçamento, baseado no salário mínimo. Com as demais contas, o salário só passa pela conta bancária.
É preciso ser mágico, equilibrista, economista, caçador de promoção. Imprescindível: é preciso pensar bem antes de comprar algo para desperdiçar depois. Não raro ouço os ensinamentos da avó: “coloque no prato apenas o que vai comer. Não tem precisão agradar os olhos e desrespeitar o estômago”.
“As roupas sujas se multiplicam mais rápido que a família Catra”. Outra verdade indubitável. Por mais higiênica que seja uma pessoa, ao término de uma semana o balde com as roupas sujas está transbordando. Não tem como fugir. “Lava-me ou te devoro”, é o enigma a ser decifrado. Talvez seja meu maior defeito, algo ainda a ser aprendido: não sei lavar roupas. A última experiência não foi muito agradável e consegui tingir de azul duas camisas brancas. Desisti. O preço de roupas novas compensa, no meu caso, pagar para lavar fora.
“Você conversa com o William Bonner”. Não é fácil. Mesmo com a internet, whatsapp e todos os aparelhos tecnológicos, nada substitui a presença humana. Como lidar com a solidão? Talvez ler Nietzsche console um pouco: “Sobre a educação — Paulatinamente esclareceu-se, para mim, a mais comum deficiência de nosso tipo de formação e educação: ninguém aprende, ninguém aspira, ninguém ensina — a suportar a solidão”. “A solidão é fera. A solidão devora. É amiga das horas, é Prima-irmã do tempo e faz nossos relógios caminharem lentos, causando um descompasso no meu coração. A solidão dos astros. A solidão da lua. A solidão da noite. A solidão da rua”. Ah, Alceu Valença. Obrigado pela canção.
Com esse pensamento, Nietzsche quer revelar “como um dos ensinamentos do espírito livre é a solidão, primeiramente porque ele atingiu tal nível de distinção que poucos podem desfrutar de sua companhia, mas também porque, acima de tudo, aprendeu a amar sua própria companhia, em vez de temê-la. Quando está consigo, sente-se em casa, onde quer que esteja”. Quem nunca leu, deve ler Guimarães Rosa, quando afirma que “Viver é muito perigoso. Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa... O mais difí¬cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra”.
“As pessoas ficam ‘uhhh, nossa! Morar sozinho deve ser maravilhoso! Olha, não é não”. Em meio às tempestades e bonanças, cada um forma sua opinião ao longo do tempo. Digo, porém, que não é fácil. É uma batalha diária com você mesmo (lembrar de tirar o lixo, verificar se não deixou o registro do gás ligado, se as torneiras estão bem fechadas, se todos os alimentos foram guardados na geladeira, se as roupas sujas foram colocadas em seu devido lugar, se as contas estão devidamente pagas, se está faltando alguma coisa na despensa, se há papel higiênico suficiente, dentre outras coisas) e com a sociedade (você não vai se casar, precisa de uma mulher para ajudar nas coisas em casa). Não se casa com uma mulher para ter uma doméstica disponível, tampouco se casa com a mãe. Os anos morando sozinho me ensinaram a principal lição: o homem precisa se conscientizar de sua importância para a manutenção do lar e aprender a fazer de tudo um pouco: “lavar, passar, cozinhar, fazer compras não faz o saco cair”, dizia minha mãe.
Morar só é, acima de tudo, um exercício diário de nossa morada para a pessoa amada que um dia há de chegar e preencher os vazios dos cômodos com sua alegria, com seus ensinamentos e com sua forma de enxergar o mundo. Mas esse é um assunto para outra crônica, a ser escrita em breve.
Para quem deseja mais informações sobre morar sozinho, algumas dicas:
https://papodehomem.com.br/o-que-ninguem-conta-sobre-morar-sozinho/
http://financasfemininas.uol.com.br/vai-morar-sozinha-saiba-como-montar-um-orcamento/
http://mdemulher.abril.com.br/estilo-de-vida/32-coisas-que-voce-precisa-saber-antes-de-morar-sozinha/
Completaríamos oito anos juntos.
Percorro os cômodos, vasculhando tudo o que foi ingrediente para o que chamávamos de “nosso lar” e noto
que
tudo
está
exatamente
do mesmo jeito ao dia anterior da sua despedida:
um velho abajur de mesa esmaltado sob um criado mudo, que de tão mudo,
assistiu a toda nossa intimidade calado, sem nos recriminar;
um porta-retratos de tamanho considerável com a imagem de um abraço nosso
sob o cenário de um lindo pôr do sol à beira mar;
um espelho oval em que todas as manhãs percebo os imensos sulcos que inevitavelmente se multiplicaram em meu rosto somente nesse último ano.
Não sei como suportei viver sem os braços fortes a me abraçarem
e suas mãos hábeis que me acariciavam por inteira,
fazendo-me estremecer dos pés à cabeça...
Não sei o que fiz com o café,
Ah, o café que você saboreava enquanto me falava sobre seus planos,
ousados planos que ainda hoje se fazem presentes em minhas retinas:
Uma viagem ao interior do interior,
ao mais pacato dos recantos,
lugar onde nunca ousamos ir (por medo ou receio do abandono).
E, dizendo essas tolices, seus olhos brilhavam e tragavam minha juventude para dentro de ti, convidando-me ao delírio das horas de descuido,
inexoráveis horas que o tempo insiste em devorar segundo a segundo,
Minuto a minuto,
Num ritmo lento-saboroso, mas ao mesmo tempo atroz.
Levanto e me dirijo ao banheiro onde tantas vezes eu chorei de alegria
por ter finalmente encontrado a felicidade na segurança do seu abraço.
O banho revigora minhas energias,
sinto-me renascida para o mundo-mundo, eterna morada dessas almas errantes.
Coloco aquele vistoso vestido longo
de estampa floral,
presente que você me deu em nosso último aniversário de casamento.
Gosto de me admirar defronte ao espelho oval,
contemplando meus ombros desnudos e
de como você os acariciava sempre que tinha oportunidade,
sussurrando em meu ouvido “segredos de liquidificador”.
Eu, cheia de vaidade,
Deixava-me levar nesse doce embalo
valsando
rodopiando no ar
feito bailarina!
Lembra, amor? Das danças?
Das incontáveis danças em que, cúmplices,
nos entregávamos um ao outro,
como se nossas almas após séculos e séculos distantes,
aproveitassem cada instante para se encontrar onde a mente de muitos não conseguem chegar?
Exaurido, você sempre me pedia uma trégua para respirar um ar
e fumar um cigarro.
Cada vez que saía pra respirar, esticava o tempo.
De propósito.
Como se evitasse a presença do meu corpo em seus braços...
Soube, tempos depois, que não haveria mais dança alguma em nossas vidas.
Deus, como esquecer aquele dia, aquele fatídico dia em que me presenteou com um vinil do Chico Buarque...
Não há nenhuma vitrola aqui perto,
Mas dentro a canção continua rasgando-me por inteiro..
“- Quando você me deixou, meu bem/
me disse pra ser feliz, e passar bem/
quis morrer de ciúmes, quase enlouqueci/
mas depois como era de costume, obedeci...”
Mal sabia que eu seria a protagonista desses versos por seis longos meses.
No dia de sua despedida,
não houve briga, não houve discussão, não houve nada.
Entre mim e ti, um abismo se abriu, onde eu mergulhei fundo e quase não voltei.
A mala, os olhos úmidos, a respiração ofegante – todas as palavras foram suprimidas do meu dicionário.
Alguns porquês, por mais necessárias que sejam as explicações,
merecem a paga do silêncio.
O tempo, ainda que devagar, encarrega-se da missão de transformar tudo em tempo.
As lembranças transformam-se em tempo.
As conversas francas, os beijos afetuosos, as intimidades de casal:
tudo se transforma em tempo.
Tempo que nos traga ou tempo que nos liberta...
Hoje, dia em que completaríamos oito anos, outros versos da canção então encontram minha voz...
“quando você me quiser rever/
já vai me encontrar refeita, pode crer/
olhos nos olhos, quero ver o que você faz/
ao sentir que sem você eu passo bem demais/
E que venho até remoçando/
me pego cantando/
sem mas nem porque..”
Bebo um a um esses últimos versos e ergo a cabeça,
descerro as cortinas, abro bem as janelas
e sorvo o ar da manhã como quem estivesse há muito tempo presa em cárcere privado.
Borboletas invadem meu estômago.
É hora de vencer a resistência dos dias
e voar.
A casa estará sempre aberta, amor.
Mas o coração,
Ah, o coração já não te pertence mais.
Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.
O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.
A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.
— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.
— Mas de manhã é quente.
Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.
— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.
— Quente?
— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:
— Mas a senhora mora aqui perto?
— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.
— Seu filho?
— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre... Mas Deus não vai me abandonar.
— É o caçula?
Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.
— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos.
Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.
— E esse? Que idade tem?
— Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado... A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.
— Seu marido está à sua espera?
— Meu marido me abandonou.
Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.
— Há muito tempo? Que seu marido...
— Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio... Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.
Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
— A senhora é conformada.
— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas...
Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto... Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.
Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim
— Estamos chegando — anunciou.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:
- Chegamos!... Ei! chegamos!
Aproximei-me evitando encará-la.
— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
— Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.
— Acordou?!
Ela sorriu:
— Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.
— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.
Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.
Texto extraído do livro “Para gostar de ler – Volume 9 – Contos”, Editora Ática – São Paulo, 1984, pág. 67.
"Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma - na princesa e na mendiga. E para ambas é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca - preparatório, e o momento dos filhos - definitivo. Depois disso, está extinta a mulher." Monteiro Lobato
Os olhos de Dona Juju marejavam. Lembranças saltavam-lhe na memória, resgatando uma célebre tarde que nunca lhe saiu do pensamento, por mais que os anos insistissem em tentar apagar de forma definitiva. O ano seguinte, os anos seguintes, todos os dias foram destinados a aceitar que uma atitude firme de sua mãe contribuiu para uma mudança radical em sua vida.
À época dos fatos, contava Dona Juju com apenas oito anos. Vivia com a mãe, o pai e uma tia em um imóvel assobradado na Rua das Acácias, atual Rua das Virtudes. Como toda menina, mantinha uma coleção praticamente impecável de bonecas que fazia inveja a colegas da mesma idade. Algumas lhe foram dadas como presente de aniversários; outras, o pai comprou após Dona Juju, diante das recorrentes negativas, decretar greves de fome.
Cuidava com paciência das bonecas, recorrendo constantemente aos livros de costura que ganhara da avó para confeccionar novos vestidos para suas “meninas”. Levava-as à médica, uma prima sua que morava em uma casa vizinha. Quem assistisse à cena jurava estar diante de uma verdadeira mãe de família, sempre preocupadíssima com a saúde, educação e crescimento de suas filhas.
O mês de novembro chegou e, com ele, a feira de Icaraí levou à Niterói tudo o que havia de novo comercializado mundo afora. Brinquedos, utensílios domésticos, alimentos. De tudo um pouco era possível ser encontrado naquela que era a maior feira da região. Os pais de Dona Juju não iam à feira. “Não gostavam de tumulto”, segredou-me em sussurros.
As novidades só chegavam à casa de Dona Juju por meio da Maricota, senhora já na casa dos quarenta, dona de uma paciência de Jó. Todos os meses, saía pelas casas da vizinhança vendendo os produtos comprados na feira de Icaraí, sem os abusos de preços que hoje muitas pessoas costumam praticar. Com isso, a margem de lucro era razoável, além de garantir à dona Maricota a fofoca da semana e a degustação de suculentas tortas ou deliciosos bolos feitos pela mãe de Dona Juju ou por outras vizinhas. Em alguns momentos, ficava além mais tempo que o necessário, à espera de um mimo da anfitriã.
Sábado de chuva. Com sua já conhecida sacola, dona Maricota chegara por volta das 14h à casa de dona Juju. Retirou um a um os produtos que tinha a oferecer: bule, xícara, pano de prato, pequenos utensílios e utilidades domésticas. Tirou também alguns brinquedos, inclusive seis bonecas. Cinco eram semelhantes a que D. Juju havia adquirido semanas antes. Mas uma delas era diferente e seus olhos imediatamente brilhavam com a possibilidade de acrescentá-la à sua vasta coleção. Não era igual as que ela possuía: era uma boneca negra, com um longo vestido rendado, uma flor de plástico pequena presa entre os cabelos, olhos encantadores.
- Mas você já tem vinte e três bonecas, Juju. Vinte e três bonecas..., - esbravejou a mãe.
“A mãe tinha razão”, pensou a menina. Não precisava de mais boneca alguma. As vinte e três que possuía garantiam-lhe horas e horas de dedicação e responsabilidade. Prepará-las para o colégio, organizar o material escolar, remendar seus vestidos, dar-lhes a comida na hora certa, levá-las à médica. Mas aquela boneca era diferente, não era? Por que não trazê-la para junto de si e cuidar dela como fazia com as outras?
- E não adianta me ameaçar com greve de fome, está ouvindo? Não tenho o coração mole como seu pai, - disparou a mãe logo em seguida.
O semblante de satisfação de Dona Juju logo se desfez. O desejo de possuir a boneca, não.
Lembrou-se de que a mesa da casa onde morava tinha uma gaveta de tamanho razoável. Não hesitou duas vezes: aproveitando um momento de distração de Dona Maricota, apropriou-se indevidamente da boneca e a lançou dentro do referido compartimento. Não viu, no entanto, que sua tia havia acabado de chegar e presenciara toda a cena. Assustada, fez menção de restituir o brinquedo ao seu devido lugar, mas a tia fez um gesto que a deixou confusa, porém mais tranquila. Com as duas mãos, a tia as posicionou em frente aos olhos, como se lhe dissesse que não havia visto nada.
Enquanto isso, Dona Maricota ria efusivamente ao saber as novidades e ao provar à torta da mãe de D. Juju. Findo seu prazo ali, preparou-se para deixar o local e reorganizou as coisas dentro de sua mochila. Desatenção ou esquecimento mesmo fizeram com que ela não notasse a ausência da boneca negra. Colocou a sacola no ombro, agradeceu à receptividade e partiu.
Dez minutos depois, Dona Juju poderia enfim desfrutar dos primeiros momentos com a boneca que escondera na gaveta. Tirou-a cuidadosamente e começou a alisar os cabelos, a ajeitar com delicadeza o vestido, a procurar em sua lista de nomes um com o qual pudesse batizá-la. Escolheu Isabel.
Sua felicidade, porém, durou pouco tempo. Repentinamente, sua mãe entrou na sala e a encontrou com a boneca nos braços.
- Que boneca é essa?
Dona Juju emudeceu. Não sabia como explicar. A tia, na cozinha, ouviu o sermão que ecoou alto pela casa.
- Quero que você me explique quem lhe deu essa boneca, tim-tim por tim-tim...
- Enquanto a Dona Maricota estava lá dentro, eu aproveitei e escondi a boneca dentro da gaveta...
Os olhos da mãe de Dona Juju trovejaram, relampejaram. Uma tempestade estaria por vir. Mas, como era de praxe da mãe, não houve surra ou qualquer castigo corporal. O castigo foi, segundo palavras da própria narradora, o aprendizado para a vida.
A mãe pediu que a filha colocasse a boneca em uma sacola: iriam imediatamente à casa da vendedora para devolvê-la. Dona Juju tentou, como se estivesse em uma última instância, um apelo para que a mãe comprasse aquela boneca.
Ao chegarem à casa da vendedora, a mãe bateu palmas e aguardou, impaciente:
- Você vai pedir desculpas pelo ato cometido! E quando chegar em casa, conversaremos..., - falou à meia voz.
- Boa tarde, Dona Maria. Boa tarde, Juju...está tudo bem? Eu ia voltar agora mesmo a casa de vocês...senti a falta de uma boneca...
- Estamos aqui para falar exatamente sobre isso, - disse a mãe de Dona Juju. – Trate de explicar o que aconteceu agora mesmo...
Dona Juju não sabia por onde começar. Mas a voz afinal vencera a crueldade e falou:
- Dona Maricota, a senhora me perdoa...eu fiz uma coisa muito feia! Mas é que eu queria tanto essa boneca pra completar minha coleção...
- Ah, isso são coisas de criança, Dona Maria. Não se preocupe...
- Me preocupo, me preocupo sim, Dona Maricota. É de pequeno que se aprende a lição de integridade, de caráter, de dignidade... As crianças também precisam aprender a ouvir não. Do contrário, crescem sem responsabilidade...
As palavras da mãe foram certeiras, que ameaçava chorar mediante a bronca e possível surra que levaria quando retornasse pra casa com a mãe.
- A senhora não quer comprar a boneca pra ela, Dona Maria? Eu parcelo em duas vezes...
- Comprar? Não...ela já tem vinte e quatro bonecas, Dona Maricota...ela precisa é controlar os impulsos..., - observou Dona Maria. – Peraí...pensando bem, vou comprar. E vou pagar a vista...
O rosto que antes estava nublado logo se desanuviou. Uma nesga de sorriso agora começava a brilhar em seu rosto. Em pouco tempo teria a boneca dos seus sonhos.
A mãe entregou o dinheiro. Mas pediu que Dona Maricota lhe trouxesse uma tesoura. Dona Juju ficou meio sem entender o que poderia acontecer, mas fez questão de sorrir mais expansivamente ainda. Logo teria seu sonho de menina realizado.
Quando Dona Maricota voltou com a tesoura em mãos, a surpresa. Dona Maria, em golpes rápidos e objetivos, rasgou toda a boneca. Cortou os cabelos, tirou o olhos, as orelhas, o pescoço...Cortou-lhe o vestido rendado, as perninhas e os bracinhos, um a um, pacientemente, sem a crueldade que o momento exigiria...mas de forma muito esclarecedora.
- Tome. É sua. Você vai levar a boneca e vai deixar junto às outras. E vai aprender de uma vez por todas que nem sempre querer é poder...
Quando chegaram em casa, não houve surra. Dona Juju foi direto para seu quarto e lá ficou, o olhar parado na janela, a noite invadindo seu pensamento. Perplexa, recordava da cena na casa de Dona Maricota. Olhava para a boneca, completamente fragmentada, aos pedaços. Pensou em reconstruí-la, mas viu que seria impossível.
Levantou-se da cama e prostrou-se iante do espelho. Viu-se diferente. Sentiu agigantar na alma um sentimento de culpa e de arrependimento. As lágrimas começaram a brotar, inundando sua face. Pensou em tudo o que fizera de errado e silenciou. Mal sabia ela que um beija-flor iniciara voo em seu estômago naquele exato momento.
Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas consequências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e instruíram.
No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror - mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum - uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
Desde a infância, tomaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões frequentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.
Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.
Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia frequentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.
Pluto - assim se chamava o gato - era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.
Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento - enrubesço ao confessá-lo - sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim - que outro mal pode se comparar ao álcool? - e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.
Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.
Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão - dissipados já os vapores de minha orgia noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.
Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti- lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado _ um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.
Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de “fogo!”. As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.
Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito – entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo _ coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras “estranho!”, “singular!”, bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei- me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.
Logo que vi tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando- o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.
Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.
Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme _ tão grande quanto Pluto _ e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo _ e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.
Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.
Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse _ detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando- se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.
De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que – não sei como nem por quê _ seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos – muito gradativamente _ , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.
Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.
No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava- se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo _ apresso-me a confessá-lo _ , pelo pavor extremo que o animal me despertava.
Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar _ sim, mesmo nesta cela de criminoso _ , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível _ que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa _, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer… E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!
Na verdade, naquele momento eu era um miserável _ um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído… uma besta- fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso _ encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim _ pousado eternamente sobre o meu coração!
Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros _ os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade _ e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher – pobre dela! – não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.
Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.
Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.
Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.
E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: “Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão”.
O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite _ e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.
Transcorreram o segundo e o terceiro dia _ e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.
No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram- me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.
_ Senhores _ disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada _ , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída… (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes _ os senhores já se vão? _ , estas paredes são de grande solidez.
Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.
Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.
Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.
Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!
Edgar Allan Poe
Extraído do blog https://contosdocovil.wordpress.com/2008/05/12/o-gato-preto/
O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia. Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente.
Um prenúncio de tragédia desceu por ele abaixo, como um arrepio. O que acabara de se lembrar era que não acordara só por acaso ou por acidente: aquele era o primeiro dia, a primeira manhã da sua separação — o primeiro de quantos dias? — em que acordaria sempre sozinho, com metade da cama fria, metade do ar por respirar.
Era Abril, sábado e chovia. Sentado na cama, lembrou-se das instruções que dera a si mesmo para aquela manhã: fazer peito forte à desgraça. Nada é inteiramente bom, mas nada é inteiramente mau - pensou. Posso ler à noite até me apetecer sem me mandarem apagar a luz, posso dormir atravessado na cama, posso-me livrar daquele rol de cobertores com o qual ela me esmagava, fizesse sol, chuva ou frio, porque as mulheres são mais friorentas que eu sei lá, posso usar a casa-de-banho todo o tempo que quiser, posso espalhar as roupas, os jornais e os papéis pelo quarto à vontade e até - oh, suprema liberdade — posso fumar à noite na cama.
Levantou-se para se olhar ao espelho da casa-de-banho. Sorriu à sua própria imagem, ensaiou-a calma, tranquila, confiante. Imaginou mentalmente o texto que poderia redigir sobre si mesmo para a secção de anúncios pessoais do jornal: “Divorciado, 40 anos, bom aspecto, licenciado, rendimento médio-alto, casa própria e espaçosa, desportos, ar livre, terno e com sentido de humor”. Mulheres compatíveis? Deus do céu, dezenas delas! Sou um partidão — concluiu para o espelho.
Calmo, tranquilo e confiante, passou aos outros aposentos da casa para dar uma vista de olhos ao resultado da partilha dos móveis, aliás feita sem grandes problemas, como é próprio de gente civilizada. Por alto, entre o living, o hall, o escritório, a cozinha, o quarto de casal e as duas casas-de-banho, estimou nuns setecentos contos o preço da reposição das coisas em falta. Mais metade dos livros e dos CD's, quase todas as fotografias dos últimos dez anos das suas vidas e algumas outras coisas cujo verdadeiro valor era o vazio que encontrava se olhasse para o lugar onde elas costumavam estar.
“Até agora vou-me aguentando”, considerou ele. Entre perdas e danos e a certeza adquirida de que nada dura para sempre, restavam-lhe várias razões e objectos e sentimentos para olhar em frente sem um sobressalto.
Enquanto fazia, com um prazer insuspeitado, o seu primeiro pequeno-almoço de homem só, passou à fase seguinte do que chamara o “plano de sobrevivência”: desfolhar a agenda de telefones em busca de amigos igualmente sós com quem fazer “programas de homens” ou de antigas namoradas, que se tinham separado ultimamente ou outras que achava acessíveis mas que nunca tivera a coragem e a oportunidade de aproximar. A primeira desilusão foi com os amigos: de A a Z, realizou que só tinha dois amigos sem mulher e, para agravar as coisas, com nenhum deles lhe apetecia sair e entrar numa de “anda daí e mostra-me lá como é o mundo lá fora”. Quanto às mulheres que julgava sortables, sempre eram cinco, mas o resultado foi quase patético. Duas já não moravam naqueles telefones, outra tinha-se casado entretanto, e o marido estava ao lado a ouvir a conversa, o que o deixou completamente idiota a inventar pretextos absurdos para o telefonema. Do número da quarta atendeu uma criancinha e ele desligou e foi só na última da lista que finalmente teve sorte: sim, a Joana morava ali, era ela própria ao telefone. Não, não estava casada nem, pelo que, esforçadamente, percebeu, tinha namorado. Sim, ok, por que não irem jantar logo, para falar do projecto que ele tinha e onde ela poderia caber. “Ah, a tua mulher não vem? Separados? Não, não sabia. Recente? Pois, essas coisas são tão chatas, mas ainda bem que reages e tens projectos novos e tudo! Ok, às oito e meia vens-me buscar”. Ele teria desligado quase em êxtase, não fosse a frase final dela, à despedida, que o deixou verdadeiramente abalado. “Olha, vais-me achar uma grande diferença. A idade não perdoa a ninguém, não é?”
Enfim, sempre era um date. O primeiro, certamente, de uma longa lista. O que interessa se for um flop — achas que ias encontrar uma mulher super logo ao virar da esquina? É preciso é entrar no circuito, pá, começar a sair, a ser visto, fazer com que as pessoas saibam que estás disponível. O resto vem por arrasto.
Passeou-se pela casa, pensativo, fumando o primeiro cigarro do dia. De repente lembrou-se que ainda não tinha visto o quarto do filho. A cama e a escrivaninha tinham ido, assim como praticamente todos os brinquedos. Sobrava um boneco de peluche, três ou quatro carrinhos semi-partidos, uns legos e um quadro para fazer desenhos, com os respectivos marcadores, pousados, à espera de uma mão de criança. A mesa-de-cabeceira ficara e parecia absurda no meio do quarto, sem a cama nem os outros móveis, com um retrato dele e do filho numa praia do Algarve, sorrindo, abraçados um ao outro. Sem saber porquê, sentou-se no chão encostado à parede, muito devagar, a olhar para a fotografia. Duas grossas lágrimas escorregaram-lhe pela cara abaixo e caíram na madeira do chão, entre as pernas. Foi só então que ele percebeu que estava a chorar.
(foi mantida a grafia original)
Miguel Sousa Tavares nasceu no Porto, Portugal. Abandonou a advocacia pelo jornalismo, até se entregar à escrita literária. Colunista do jornal Público e da revista Máxima, é comentarista da Rádio e Televisão de Portugal (RTP). Jornalista famoso e controvertido, é dono de opiniões fortes, trava polêmicas em vários campos: política, literatura, esportes e outros. Seu primeiro livro lançado no Brasil foi “Equador”, que obteve enorme receptividade entre o público leitor. O autor é filho da grande poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, falecida em 2004.
Primeiro de maio
No grande dia Primeiro de Maio, não eram bem seis horas e já o 35 pulara da cama, afobado. Estava bem disposto, até alegre, ele bem afirmara...


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